sábado, 7 de janeiro de 2012

Viver sem dinheiro


Lê-se na sinopse do documentário que Heidemarie Schwermer é o nome de uma mulher alemã de 69 anos que há 15 anos resolveu deixar de usar dinheiro. Ela doou tudo o que tinha e manteve apenas uma mala com aquilo de que não podia prescindir. Ela inclusivamente deixou o apartamento que tinha! O filme documental Living without money mostra os desafios que Heidemarie, que tem formação universitária, tem de enfrentar diariamente para viver dentro deste estilo de vida alternativo que escolheu para si. Perante a inexistência de dinheiro, em vez de sentir dependente, insegura, receosa do futuro, ela proclama que está cada vez mais independente e livre. Livre e sem stress. As suas convições são inabaláveis: está melhor assim do que antes.

Heidemarie está em constante movimento e não pára de conhecer pessoas. Algumas já se tornaram familiares e ela sabe que pode contar com elas se precisar de abrigo no seu périplo. 
Vive em quartos que estão vagos e que lhe vão sendo emprestados. Fica em cada lugar uma semana mais ou menos. Trabalha por um prato de comida. Se lhe quiserem dar dinheiro, ela aceita, mas fiel ao seu princípio, não fica com ele. Ou seja, criou uma rede de suporte pois as pessoas estão dispostas a recebê-la quase como uma convidada em suas casas. Outras querem experimentar este estilo de vida por uma semana com ela a servir de guia. Ela é, afinal, uma espécie de saltimbanca ou peregrina dos tempos modernos, tentando espalhar a sua mensagem por onde passa, viajando constantemente pela Alemanha, muitas vezes também na Áustria, Suíça e Itália,  realizando palestras sobre sua experiência e dando entrevistas na rádio e na TV.

O que ela tenta transmitir é que levar a vida de uma forma mais fácil é possível. O filme mostra como ela consegue obter por meio de trocas o que todos nós obtemos no nosso dia-a-dia a troco de dinheiro: 
onde comer, onde dormir e como ir até esses lugares onde lhe dão trabalho. Heidemarie suscita opiniões contraditórias: há quem a apelide de parasita social e há quem a considere uma visionária, uma fonte de inspiração. Pode dizer-se que Heidemarie não vive sem dinheiro, ela está a servir-se do dinheiro que os outros têm indirectamente. O quarto livre onde ela passa uma semana pertence a alguém que teve de pagar por ele. Vista a aventura de Heidemarie por este prisma, ela deixa de ser tão romântica como à primeira vista parece. Ela pode dar-se ao luxo de viver uma vida despreocupada porque os outros que a rodeiam não vivem desse modo. Você seria capaz de escolher este tipo de vida? Como reagiria a estas críticas? 

Numa sociedade onde tudo tem um valor e onde muitas vezes, infelizmente, a importância das pessoas se mede pelo salário que ganham, o caso Heidemarie suscita pasmo. Pensem bem: na nossa sociedade quase tudo pode ser comprado e vendido. A maioria das pessoas é educada e cresce ambicionando ter dinheiro, a maior parte das vezes o sentimento é, quanto mais melhor. Porque ser rico é bom, é o contrário de ser pobre. Ser rico abre portas para a satisfação de todos os nossos desejos. Eu, por exemplo, consigo imaginar um mundo sem dinheiro, esse mundo até já existiu. Mas como inventaram o dinheiro, não me estou a ver a conseguir viver sem ele. Embora saiba que consigo viver com pouco. Já tenho trocados coisas. Mas não é fácil. 

Heidemarie é um pouco ingénua em algumas matérias. Deve ser daquelas criaturas que têm uma saúde de ferro e por isso pode dizer que se vai safando com técnicas de auto-cura. Se adoecer gravemente, como vai fazer para ter cuidados médicos e obter medicamentos? Ou aceitará morrer pelas ideias que defende? Depois diz que muitas das doenças que temos são causadas pela nossa luta para obter o dinheiro. Claro que sim, neste ponto eu dou-lhe razão. Eu tive um esgotamento provocado por excesso de trabalho há uns anos, e, afinal, quanto ganhava eu? Nada de extraordinário, o suficiente para levar uma vida considerada digna. E será que ela consegue sempre trocar um lápis por uma peça de fruta sem receber uma resposta torta? Poderá fazê-lo no merceeiro local mas se eu for ali ao Jumbo e o tentar chamam o segurança certamente e pedem para levar a doida à entrada. Ela aparece bem tratada e bem vestida. E se eu aparecesse por lá com ar desgrenhado e ar de quem dormia ao relento há três dias e não tomava banho?! Aí, até talvez chamassem a polícia.

Ainda assim, este documentário revela-nos uma história curiosa de uma pessoa que teve a coragem de viver de uma outra maneira. Heidemarie defende que no futuro poderemos todos viver como ela e eu tenho sérias dúvidas sobre essa sua visão, mas o seu estilo de vida alternativo não deixa de ser um contributo para refletirmos sobre o materialismo e o excesso de consumo que são a imagem de marca das sociedades modernas, ditas desenvolvidas, e que, está provado, não garante a felicidade.

2 comentários:

  1. Olá amiga vim retribuir a visita.Parabéns pelo blog e já estou te seguindo.Bjus!

    ResponderExcluir
  2. Que linda história!

    Estou te seguindo e agradeço a visita a Panos e Art.

    Abreijos

    ResponderExcluir

Obrigada por vir até aqui. Volte em breve pois novas coisas e ideias serão acrescentadas! Se tem sugestões não hesite em partilhá-las para que este blogue nos seja mais útil e interessante!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...